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Sem inventar, Zélia canta Milton com suavidade no arco de Morelenbaum

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“Nada a acrescentar a Milton, Brant, Elis, Nana, esses pilares da nossa cultura, mas reverenciar, agradecer, voltar, olhar de novo, cantar com nossa voz, ouvindo a voz deles guiando tudo”, esquiva-se Zélia Duncan no texto que escreveu para o encarte das duas edições em CD de Invento + (Biscoito Fino), álbum em que a cantora fluminense interpreta 14 músicas do repertório de Milton Nascimento somente com o toque do violoncelo de Jaques Morelenbaum. Nesse trecho do texto, Zélia se põe na mesma posição defensiva em que se situou na noite de 5 de maio de 2015, quando apresentou pela primeira vez, dentro do projeto Inusitado, o show em que canta Milton envolta no arco virtuoso e plural de Morelenbaum.

Na estreia nacional do recital, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), a artista ressaltou que iria interpretar as canções de Milton sem “reinventar a roda” e que procuraria “nem lembrar” que boa parte daquelas canções do compositor carioca de alma mineira tinha sido gravada por intérpretes como Elis Regina (1945 –1982) e Nana Caymmi. Curiosamente, Invento +Zélia Duncan e Jaques Morelenbaum interpretam Milton Nascimento é o título do disco que traz o registro de estúdio do show idealizado dentro do projeto concebido por André Midani, importante executivo da indústria fonográfica na época em que Milton consolidou obra autoral de assinatura original que nunca seguiu cânones e que se tornou ela própria, a obra, referência a ser seguida.

Não, a não ser pelo formato realmente inusitado da abordagem feita somente com uma voz e um violoncelo (instrumento que, em tese, seria insuficiente para oferecer base segura para uma cantora), Zélia não inventa moda neste álbum em que canta 14 das 20 músicas do roteiro original do show. Nesse sentido, Invento + quebra nobre linhagem de discos feitos pela artista desde 2004 com a centelha da invenção. Basta dizer que, há cinco anos, a cantora abriu no álbum Tudo esclarecido (2012) janela que iluminou até então desconhecida aura pop do cancioneiro marginalizado do compositor paulista Itamar Assumpção (1949 – 2003). Há dois anos, a cantora e compositora pisou firme no terreirão do samba com outro álbum irretocável, Antes do mundo acabar (2015).

Invento + preserva o alto padrão artístico da discografia sortida de Zélia sem fazer a roda girar. Para quem já viu o show, o disco – gravado com produção musical e com arranjos de Morelenbaum – bisa o tom terno com que a cantora interpreta músicas como San Vicente (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1972), Ponta de areia (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1974) e Encontros e despedidas (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1981), composições gravadas por cantoras geralmente inalcançáveis como Elis e Nana. E também pelo próprio Milton, ele próprio um dos maiores cantores do mundo nas décadas de 1960, 1970 e 1980. Basta ouvir na voz de Milton a arrepiante gravação de O que será? (À flor da pele) (Chico Buarque, 1976) – música incluída por Zélia e Morelenbaum no repertório de Invento + – para atestar a divindade vocal do cantor.

Mesmo também tendo se transformado numa grande cantora ao longo dos 36 anos de carreira, Zélia sabe que era impossível superar Milton, Elis e Nana. Talvez por isso tenha adotado reverente tom suave que, ao mesmo tempo em que dilui a carga emocional e por vezes épica de standards da MPB como Travessia (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1967) e Beijo partido (Toninho Horta, 1975), a livra de comparações injustas pela própria natureza vocal dos nomes envolvidos.

Para quem gosta do canto grave e extremamente afinado de Zélia Duncan, Invento + soa como relicário de afetos, expressando a admiração de cantora pós-tudo-bossa-MPB pela obra superlativa de compositor já (con)sagrado. E é para esse público atento que a Biscoito Fino produziu edição especial do CD com tiragem limitada e numerada de 300 cópias, à venda somente no site oficial da gravadora. Nessa edição de embalagem artesanal, com direção de arte (de Flávia Pedras Soares) condizente com o espírito afetuoso do disco, a letra de cada música está reproduzida em cartão que expõe colagem do artista plástico Nino Cais (uma dessas colagens aparece estampada na capa da convencional edição em CD também feita em formato digipack).

A capa valoriza álbum que, mesmo sem inventar moda, se impõe pela força do repertório de Milton Nascimento, embora nada acrescente à obra. Afinal, nem sempre a roda precisa girar para produzir instantes de beleza artística. (Cotação: * * * *)

(Créditos das imagens: Zélia Duncan e Jaques Morelenbaum em foto de Leo Aversa. Capas das duas edições em CD do álbum Invento + Zélia Duncan e Jaques Morelenbaum interpretam Milton Nascimento)

96 FM BATURITÉ.

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